Análise da redação do ENEM 2025: Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira

O ENEM 2025 surpreendeu os candidatos com um tema que exige sensibilidade, interpretação crítica e domínio de repertório sociocultural: “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”.
Mais do que tratar do envelhecimento em si, a prova convidou o participante a refletir sobre as visões sociais e culturais construídas em torno da velhice — e a problematizá-las.

Neste artigo, vamos analisar em detalhes o tema da redação do ENEM 2025, apontando as principais armadilhas, eixos argumentativos, repertórios produtivos e proposta de intervenção que garantiriam a nota 1000.

Entendendo o tema da redação do Enem 2025: a “pegadinha” da palavra-chave

A maior dificuldade estava na interpretação do comando temático.
Enquanto temas anteriores traziam palavras como “desafios” ou “impactos”, a edição de 2025 optou por “perspectivas” — um termo que muda completamente o foco da discussão.

👉 Perspectiva significa visão ou ponto de vista sobre algo.

O tema, por si só, não apresenta um problema evidente. Portanto, o candidato precisava problematizar as visões sociais sobre o envelhecimento, mostrando como elas são frequentemente negativas, limitantes e preconceituosas.

Em outras palavras, a tarefa não era descrever o envelhecimento, mas analisar como a sociedade enxerga o idoso e quais fatores moldam essa percepção.

📌 Pontos-chave da interpretação:

  • “Perspectivas” → enfoque nas visões (positivas ou negativas) sobre o envelhecimento.

  • “Sociedade brasileira” → obrigatoriamente discutir o contexto nacional (dados, políticas públicas, desigualdade social).

  • Tese esperada: apontar que o envelhecimento no Brasil é cercado de preconceitos e omissões estatais que dificultam o envelhecer com dignidade.

Possibilidades de argumentação

Ao estruturar a redação, o ideal era desenvolver dois parágrafos argumentativos, cada um com foco específico. Veja as principais abordagens possíveis:

Argumento 1: Etarismo e Cultura da Obsolescência Social

O primeiro eixo trata do preconceito estrutural que transforma o envelhecer em sinônimo de inutilidade.

  • A sociedade brasileira ainda mantém uma visão retrógrada sobre a velhice, associando-a à fragilidade, à doença e à incapacidade.

  • A filósofa Simone de Beauvoir, em A Velhice, explica esse processo como uma forma de “obsolescência social” — quando o indivíduo passa a ser tratado como algo ultrapassado, sem utilidade.

  • Esse fenômeno se reflete:

    • na falta de oportunidades no mercado de trabalho para pessoas idosas;

    • e na exclusão digital, resultado da escassez de centros de capacitação tecnológica para a terceira idade.

Esses exemplos reforçam a ideia de que o idoso, no Brasil, é visto mais como um “peso” do que como um sujeito ativo e produtivo.

Argumento 2: Omissão Estatal e Desigualdades Acumuladas

O segundo eixo destaca a responsabilidade do Estado e o papel das desigualdades históricas no agravamento das condições de vida na velhice.

  • A desigualdade econômica faz com que muitos idosos sejam provedores da família, mesmo sem condições de saúde ou estabilidade financeira.
    📊 Segundo dados recentes, 38% dos idosos são a principal fonte de renda do lar, e 28% sustentam a casa sozinhos.

  • A falta de políticas públicas eficazes agrava o problema.
    Embora o Brasil seja signatário da Agenda 2030 da ONU, que prevê o direito à longevidade digna, ainda há falhas graves na execução de medidas de saúde, moradia e segurança voltadas aos idosos.

Exemplos práticos da omissão estatal:

  • escassez de hospitais com atendimento geriátrico especializado;

  • falta de casas de acolhimento público para idosos vulneráveis;

  • ausência de delegacias específicas para proteger pessoas idosas contra abusos e violência.

Argumento 3 — Exclusão digital e solidão

Outro recorte possível era abordar o isolamento social e a exclusão tecnológica, que impedem o idoso de participar plenamente da vida moderna.
Faltam políticas de inclusão digital, centros de convivência e suporte psicológico, especialmente nas periferias.

🎞️ Repertórios possíveis:

  • O filme Up – Altas Aventuras, que retrata o abandono e o isolamento afetivo.

  • O filme Um Senhor Estagiário mostra como o preconceito inicial contra um idoso no mercado de trabalho pode ser superado, reforçando a importância da inclusão intergeracional.

Repertórios socioculturais que enriquecem a redação

Utilizar repertórios legitimados é essencial para alcançar nota máxima na Competência 2.
Veja algumas referências que se encaixam perfeitamente ao tema do ENEM 2025:

TipoReferênciaAplicação
🧠 Filosofia/ SociologiaA Velhice, de Simone de BeauvoirCrítica à obsolescência e apagamento social dos idosos.
🎬 CinemaUm Senhor Estagiário (2015)Retorno ao trabalho na velhice e superação do preconceito.
🎞️ AnimaçãoUp – Altas AventurasAbandono e exclusão afetiva dos idosos.
🎥 Filme brasileiroO Último AzulRetrata o confinamento e a solidão do envelhecer, evidenciando o distanciamento social.
📚 Literatura brasileiraMemorial de Aires, de Machado de AssisReflete sobre a velhice como etapa de contemplação e memória, destacando a passagem do tempo e o isolamento emocional.
📽️ DocumentárioQuantos Dias. Quantas NoitesDisparidades sociais e raciais no envelhecimento brasileiro.
⚖️ Legislação e documentosEstatuto da Pessoa Idosa e Agenda 2030 da ONUFundamentam críticas à omissão estatal.

Essas referências ajudam o candidato a construir uma redação mais autoral, crítica e interdisciplinar.

Proposta de Intervenção: soluções concretas e detalhadas

A Proposta de Intervenção (PI) deve estar diretamente conectada aos problemas levantados e apresentar agentes, ações, meios e finalidades claras.

Sugestões eficazes:

  1. Agente Principal: Ministério Público (MP) e Escolas.

    • Ação: Promover projetos de conscientização e capacitação sobre envelhecimento ativo e combate ao etarismo.

    • Meio: Parcerias com empresas e ONGs para criar centros de inclusão digital e profissional para idosos.

    • Finalidade: Reduzir o preconceito e reintegrar os idosos à vida social e produtiva.

  2. Agente Complementar: Governo Federal / Ministério da Saúde.

    • Ação: Implementar hospitais geriátricos, casas de acolhimento público e delegacias especializadas.

    • Finalidade: Garantir os direitos previstos na Agenda 2030 e promover uma velhice digna e segura.

Essas medidas demonstram conhecimento de mundo, coerência e compromisso com a cidadania — exatamente o que o ENEM busca.

Conclusão: um tema sobre dignidade e mudança de olhar

A redação do ENEM 2025 desafiou os candidatos a repensarem as visões sobre o envelhecimento, indo além de dados demográficos para discutir valores, preconceitos e responsabilidades coletivas.

Ao interpretar corretamente a palavra “perspectivas” e adotar uma postura crítica diante do etarismo e da omissão estatal, o estudante demonstra domínio argumentativo e sensibilidade social — qualidades essenciais para uma redação nota 1000.

Assim como o personagem Sr. Frederiksen, de Up: Altas Aventuras, o idoso brasileiro merece reconhecimento, acolhimento e espaço para recomeçar.

Que as próximas gerações aprendam que envelhecer não é o fim de um ciclo, mas a continuação de uma história repleta de sabedoria e humanidade.

Leia também: Os 10 erros mais cometidos na redação do Enem.

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